Entrevista Tom Wlaschiha

 

Tom Wlaschiha, que interpreta um  dos personagens mais misteriosas da história criada por George R.R. Martin, Jaqen H’ghar, deu uma entrevista ao Access Hollywood, que continua assim a sua série de entrevistas a atores da série.
AccessHollywood.com: Comecemos pelo início – como é que se pronuncia o nome do seu personagem?
Tom Wlaschiha: (Risos) Bem, a decisão foi um pouco minha, na verdade.
Access: Isso é hilariante.
Tom: Bem, discutimos o assunto. O David [Benioff] e o Dan [Weiss], os produtores, perguntaram-me como é que gostaria de o pronunciar, disse-lhes que diria “Jack-in”, e eles concordaram.
Access: Que bom a decisão ter sido tua. Há tantas personagens nos livros com nomes que nunca ouvimos pronunciar.
Tom: Eu sei, e escrito parece um pouco estranho, no início não sabemos como o pronunciar. E ele é um personagem estranho e misterioso.
Access: Portanto, no início da segunda temporada, fala-nos sobre o Jaqen – ele é dos bons ou dos maus? 
Tom: Acho que o melhor no Jaqen é que ele é muito ambíguo como personagem, não sabemos realmente… É isso que é fantástico em Game of Thrones – todas as personagens não são retratadas de uma forma cliché. Não são clichés, são todos humanos. Têm lados positivos e lados negativos, por isso o Jaqen certamente… não sabemos realmente de onde é que ele vem ou se tem objetivos secretos.
Acess: Qual a importância de Jaqen para a história da Arya que vemos na segunda temporada?
Tom: No início, a Arya não confia nada nele porque ele está preso, está a ser levado para a Muralha como prisioneiro e depois algo a atrai para ele.
Access: É suposto a tua personagem ter um aspecto um pouco diferente. Fala-nos sobre as roupas e, claro, o cabelo…
Tom: Fizeram um trabalho excelente. Tive de ir aos ensaios de maquiagem e roupa algumas vezes antes de começarmos realmente a gravar e ambos os departamentos fizeram um trabalho incrível na escolha das roupas. Basicamente, tenho várias camadas de – não sei o que são – são trapos velhos, e coisas como camisas rasgadas, mas é realmente um traje incrível. E a peruca? Bem… já li várias discussões em sites acerca da peruca, porque nos livros tem claramente duas cores – o cinzento ou branco e o vermelho. Muitas pessoas estão preocupadas que possa parecer ridículo na vida real, mas acho que fizeram um trabalho fantástico – as pessoas da maquilhagem. Achei que parecia perfeitamente natural. A última vez que tive cabelo comprido, tinha 24 anos. Foi há muito tempo, por isso foi bom ter de novo o cabelo comprido.
Access: Espero que tenham lavado essas roupas.
Tom: Estou certo que o fizeram. Se não fizeram, não me teria importado muito porque me ajuda a entrar na personagem. Não acho que na era medieval estivesse tudo limpo.
Access: Como foi trabalhar com a Maisie Williams (Arya)? Ela é tão talentosa.
Tom: Ela é fantástica. Quero dizer, é incrível. Tudo lhe parece vir naturalmente. Não temos a impressão – quer dizer, quantos anos é que ela tem?… Acho que agora tem 14, está totalmente à vontade e não parece estar nervosa. Simplesmente faz o que tem a fazer e faz com perfeição.
Access: E tem todos aqueles rapazes à volta, a apoiá-la.
Tom: Acho que ela gosta disso (risos).
Access: De onde você vem?
Tom: Dohna. É um sítio muito pequeno. Fica perto de Dresden.
Access: Li que é muito antiga. Crescer num local histórico tornou Game of Thrones mais interessante para você?
Tom: (Risos) Bem, o sítio onde cresci é certamente muito antigo, foi completamente destruído durante a guerra. Estão agora a reconstruir partes da cidade, mas gosto realmente de todo o tipo de filmes e livros históricos porque nos dão a oportunidade de mergulhar noutro período de tempo. Posso usar uma peruca e cavalgar e usar armas. Sim, é um pouco como um conto de fadas e na maior parte do tempo interpretamos personagens que são muito próximas ao que somos na vida real, e livros deste género dão-nos oportunidades realmente diferentes.
Access: Quantos livros você leu?
Tom: Li os dois primeiros livros… Tive de ler outras coisas pelo meio, mas vou definitivamente ler o 3, o 4 e o 5… Quando vi os livros pela primeira vez pensei ‘Oh meu Deus. 1000 páginas cada, nunca vou terminar’, e depois penso que terminei um deles em 2, 3 dias. É um page-turner. Não se consegue parar.
Access: Como homem que fala muitas línguas, leste na tua língua materna ou…
Tom: Não, não, não… li em inglês. Se possível, gosto de ler os livros na língua em que foram escritos.
Access: É tão fascinante que fales tantas línguas.
Tom: Isso foi mais ou menos a única coisa que me interessou na escola. Cresci na Alemanha de Leste, portanto tivemos de aprender Russo na escola… toda a gente odiava. Nunca pensei que pudesse vir a ser útil… E sendo um ator, consegui utilizá-lo um pouco.
Access: Disse que foi até a Internet. Visitas os sites de fãs ou há uma conta secreta do Tom no Twitter que usas para encontrar informação?
Tom: Não, fiz apenas alguma pesquisa quando li os livros, queria saber mais e acabei por encontrar todos esses sites de fãs e li um pouco. Não queria ser demasiado influenciado por nada… Queria ter a minha própria impressão dos livros e a minha imaginação e fantasias sobre o papel.
Access: Algum fã de Game of Thrones te reconheceu?
Tom: Não, até agora não, mas tenho estado maravilhado… mudei-me para Londres há meio ano e vi tantas pessoas lendo os livros no metro e nos aviões, é inacreditável. Durante um tempo, parecia não haver outros livros (risos). Estava sempre a ver pessoas lendo o Game of Thrones. É incrível.
Access: Acabou recentemente de fazer uma comédia alemã – como é que se chama?
Tom: A comédia alemã chama-se‘Frisch Gepresst’ (risos), que traduzido significa ‘Espremido e Fresco’. É uma comédia sobre uma mulher entre dois rapazes. Basicamente, ela está grávida. Não sabe quem é o pai. Foi um filme divertido de filmar. Vai sair na Alemanha no final de Agosto.
Access: Você tem outras coisas para fazer agora?
Tom: Vou regressar para fazer alguns dias no ‘Rush’ do Ron Howard… É muito excitante.
Access: O que vais fazer nesse filme?
Tom: Interpreto um piloto de corridas chamado Harald Ertl… um adversário do Niki Lauda.
Access: Brinquedos de rapazes, vai conduzir algum carro, imagino?
Tom: Espero que sim!

Entrevista Isaac Hempstead

E as entrevistas não param de aparecer, à medida que nos aproximamos da data de estreia da série. Vamos lá a ver se me consigo manter a par 🙂
Desta vez, Isaac Hempstead-Wright, o garoto que faz de Bran Stark na série, foi entrevistado pelo Science Fiction. Adorei ler esta entrevista!
Pergunta: Você ou a sua família já leram os livros? Como é que reagiram quando descobriram que você tinha sido escolhido para o papel de Bran Stark?
Resposta: A minha mãe leu os dois primeiros livros e o meu pai está atualmente no 5.º livro. E muitos dos nossos amigos também ficaram viciados. Tentei ler A Game of Thrones, mas achei-o um pouco assustador. Vou tentar de novo quando for um pouco mais velho. Ficámos muito entusiasmados quando consegui o papel, apesar de, ao olhar para trás, acho que não sabíamos muito bem o que significava. Foi uma experiência totalmente nova para nós.
P: Quão diferente é Bran de ti, em termos de personalidade? O que é que te levou à personagem? É difícil entrar nela?
R: No início, ele é um rapaz de 10 anos bastante típico, por isso não muito diferente de mim. Infelizmente, a vida tem algumas coisas cruéis reservadas para Bran e ele tem de suportar algumas dificuldades extremas. Não consigo começar a imaginar o que é perder a família, o uso das pernas e toda a segurança, por isso não tenho a certeza de ser possível entrar completamente na personagem. Mas acho que ele é forte e inteligente e tem um bom instinto de sobrevivência, e um bom amigo em Hodor!
P: Como é ter de representar sem utilizar as pernas?
R: Na verdade, não parece estranho representar sem utilizar as pernas, mas torna-me mais consciente da forma como utilizo o resto do meu corpo.
P: Como é trabalhar com os cães? Nesta temporada são CGI [gerados por computador], foi uma mudança difícil?
R: Foi muito fácil trabalhar com os cães. Os cachorros na cena dos lobos eram muito doces, e eu queria levar um para casa comigo. O meu lobo crescido chama-se Elsa e ela é linda. Fico contente por dizer que ela ainda esteve nas gravações desta temporada. Portanto, não houve uma mudança enorme com as adições CGI.
P: Foi estranho saber que você ia fazer uma cena onde era atirado de uma torre? Como é que se prepara para uma coisa dessas?
R: Foi fácil, porque estava preso a um fio enquanto subia a torre e depois tive de cair para uns tapetes quando fui atirado. A equipa de dublês era incrível – aprendi tanto com o Paul [Jennings, Coordenador de Dublês], com a Amie [Stephenson, Gestora de Dublês] e com o Buster [Reeves, Coordenador Assistente de Dublês ]. Suponho que foi um pouco estranho que alguém me tentasse matar, mas o Nikolaj [Coster-Waldau, que interpreta Jaime Lannister] estava sempre a pedir desculpa, e eu dizia ‘Não, está tudo bem!’
P: Qual foi a sua parte preferida ao gravar a série?
R: Gostei muito de aprender acerca do processo de gravações. As câmaras são incríveis, com todas as lentes diferentes e nunca imaginei que houvesse empregos como “focus puller” (1.º cameraman assistente), “loader” (2.º cameraman assistente) e supervisores de argumento. Também adorei conviver com o elenco e a equipa. Fiz tantos bons amigos.
P: Qual foi a tua cena preferida de filmar? Qual foi a mais difícil?
R: A minha cena favorita foi quando os selvagens atacam – foi muito excitante, com uma grande quantidade de ação dramática. Sou fascinado pelas próteses, são tão realistas. Deram-me alguns moldes que tinham a mais de cortes e rasgões, com os quais assustei os meus amigos. A cena mais difícil foi a da execução no episódio piloto, por causa do tempo. Estava tanto frio e os ventos tão implacáveis, que acho que deve ter atingido uma temperatura de -400º.
P: Tem histórias das gravações que gostaria de partilhar connosco?
R: É muito divertido estar em gravações. Há sempre tanta coisa a acontecer. É ser constantemente vestido em prol da continuidade, as roupas e a maquiagem a serem sempre verificadas, há tanto equipamento técnico em todo o lado e toda a gente é muito positiva e amigável. É um local muito bom para se estar. Mesmo quando se está à espera na noite ao frio e ao relento, não me importo. Falo com os outros membros do elenco, jogo às cartas, convivo. E nesta temporada passo muito tempo com o Hodor [Kristian Nairn], o que é brilhante. O Kristian é encantador e um tipo muito engraçado, faz-me mesmo rir. Não há cenas cortadas do género, o que me surpreendeu. Vemos aqueles programas com cenas cortadas e ficamos com a impressão que tudo corre mal nas gravações dos filmes. Em Game of Thrones, uma vez que o realizador diz “Ação” é tudo muito profissional, ninguém comete erros. Apesar disso, tive um pequeno contratempo na cena de abertura no pátio, quando o Bran está a praticar tiro com arco. Tinha de saltar uma cerca e perseguir a Arya [interpretada por Maisie Williams]. Fizemos muitos takes e estava a gostar muito de saltar sobre a cerca e comecei a imaginar que estava num filme do James Bond, quando pus mal o pé, falhei completamente a cerca e voei, aterrando com um baque do outro lado. O Tim Van Patten [realizador] achou muito engraçado.
P: Como é conciliar a escola e as gravações?
R: Recomendo combinar a escola e as gravações!  Tive muito tempo de folga, foi incrível. E a minha escola apoiou-me muito. Preparam trabalho para mim, que faço com um professor particular ou com a minha mãe. Funciona bem, por enquanto.
P: És próximo dos outros membros do elenco?
R: Ter podido conhecer o elenco foi muito excitante. Sou muito próximo da minha família Stark e de toda a criadagem Stark (e, de forma controversa, dos Lannisters também!). Tive muita sorte em ter várias cenas com o Donald [Sumpter, que interpreta Maester Luwin], que tem sido incrivelmente prestável e amável comigo. Conheci outros membros do elenco aqui e ali. O Jason [Momoa, que interpreta Khal Drogo na primeira temporada] é muito forte. Consegue pegar-me só com um braço!
P: Deve ter sido excitante receberes o teu primeiro ordenado. Qual foi a primeira coisa que comprou?
R: Sim, é incrível ser pago para me divertir tanto, mas para ser sincero a minha mãe não gosta que eu gaste o meu dinheiro porque ela quer que eu poupe para poder pagar a universidade. Felizmente, deixou-me comprar algumas coisas, a primeira das quais foi uma câmara de filmar Canon HV30 e algum software de edição para eu poder começar a fazer os meus próprios filmes.
P: A representação foi algo que sempre quis fazer?
R: Nunca planeei representar. Apenas me juntei ao clube de teatro porque me impedia de jogar futebol em domingos de manhã invernosos. Tive muita sorte em conseguir o papel de Bran. A minha mãe disse que eu só podia fazer 6 audições. Recebi um anúncio e Game of Thrones foi a sexta.
P: Você se vê representando no futuro?

R: Gostaria de continuar a representar, ou talvez escrever ou realizar quando for mais velho.

Fonte:

GRRM Entrevista Bernard Cornwell

Há alguns dias, Martin postou no seu website, essa entrevista que ele fez com o autor inglês Bernard Cornwell. Uma conversa interessante, principalmente para aqueles que são fãs dos autores e de fantasia épica em geral. Vale a pena dar uma conferida:
GRRM: É muito antiga a minha afirmação de que o romance histórico e a fantasia épica são irmãs sob a pele, que os dois gêneros têm muito em comum. Minha série deve muito ao trabalho de J.R.R. Tolkien, Robert E. Howard, Jack Vance, Fritz Leiber, e os outros grandes fantasistas que vieram antes de mim, mas eu também tenho lido e apreciado o trabalho dos romancistas históricos, como Thomas B. Costain, Mika Waltari, Alfred Duggan, Nigel Tranter, e Maurice Druon. Quem foram suas influências próprias? Que escritores você cresceu lendo? Ficção histórica foi sempre a sua grande paixão? Você já leu fantasia?

BC: Você está certo – romances de fantasia e históricos são gêmeos – e eu nunca gostei da etiqueta “fantasia”, que é muito generalizada e tem uma qualidade faérica. Parece-me que você escreve romances épicos em um mundo inventado que é fundamentado na realidade histórica (se as histórias dos livros se passam no futuro, então “fantasia” torna-se magicamente “sci-fi”). Então eu fui influenciado por todos os três: fantasia, sci-fi e romances históricos, embora a maior influência tenha sido dos livros de Hornblower do C.S. Forester. Eu os li quando era adolescente, era consumido por eles, fiquei sem material de leitura após o último da série e assim comecei a ler as histórias de não-ficção do período napoleônico. Isso levou a uma obsessão por Wellington e seu exército, o que levou diretamente para Sharpe. Talvez se eu tivesse lido Tolkien antes Forester, eu tivesse tomado aquele caminho (e ele me tenta!). Mas todos nós escrevemos o que queremos ler e eu sempre fui um ávido consumidor de romances históricos… e, é claro, de histórias! Devorei todos os escritores clássicos de SciFi: Asimov, Heinlein e etc. Eles me ensinaram como a história é importante, mas a grande dívida ainda está com C.S. Forester (outro mestre contador de histórias.)
GRRM: Fantasistas desfrutam de certas liberdades que os romancistas históricos não. Eu posso surpreender os meus leitores, matando reis e outros personagens principais, mas o destino dos reis e conquistadores do mundo real está bem ali, nos textos da história, nós sabemos quem vive e quem morre antes de terminarmos o romance aberto. Quando a batalha acontece no Abismo de Helm ou nos Campos de Pelennor do Tolkien, ou sobre a Baía da Água Negra e no Bosque dos Murmúrios, em minhas próprias fantasias, o resultado da luta é desconhecido até o autor revelá-lo na página, mas o romancista histórico é obrigado a trilhar o caminho estabelecido pela história. Como você lida com o desafio de fazer de Waterloo ou Bull Run ou Agincourt algo surpreendente e emocionante quando a maioria dos seus leitores sabem de antemão o resultado?
BC: Eu posso surpreender os meus leitores matando reis e outros personagens principais. Oh sim, você pode fazer isso! Eu ainda não te perdoei pela execução de Ned Stark, mas eu estou aprendendo a viver com ela! Eu nunca penso que importa se o leitor conhece o desfecho da história antes de chegar ao fim – todos nós, quando crianças, queríamos que as mesmas histórias fossem contadas para nós mais e mais ainda que soubéssemos que o lobo não conseguiria comer a pobre Chapeuzinho. Eu sempre penso em um romance histórico como tendo duas histórias – a grande história e a pequena – e o escritor as inverte. A grande história em Gone With the Wind é se o Sul pode sobreviver à Guerra Civil e todos nós sabemos o que aconteceu, mas a pequena história é se Scarlet pode salvar Tara, e essa pequena história é colocada em primeiro plano, enquanto a grande história serve como plano de fundo. Suponho que o suspense esteja nessas pequenas histórias – o Sharpe vai sobreviver à Badajoz? (bem, o leitor sabe que ele vai, suponho!). E eu acho que os leitores conseguem encontrar um fascínio no desenrolar de uma história. Grande parte do povo Inglês conhece a Batalha de Agincourt – está profundamente na consciência nacional – mas quase ninguém sabe o que realmente aconteceu lá. A história rapidamente se transforma em mito (o mito de Agincourt diz que as flechas ganharam o dia, o que decididamente não aconteceu, embora Deus saiba que Henrique teria perdido sem elas) e, talvez, um dos prazeres de ler um romance histórico é descobrir a verdade por trás do mito.
GRRM: Ficção histórica não é história. Você está misturando fatos reais e personagens históricos reais com personagens de sua própria criação, como Uhtred e Richard Sharpe. Quanta “licença poética” deve ter um romancista quando se lida com os acontecimentos da história? O quão preciso ele precisa ser? De onde você traça essa linha?
BC: Não posso mudar a história (se só), mas eu posso jogar com ela. A resposta depende um pouco do que estou escrevendo. Eu fiz uma trilogia sobre o ‘Rei’ Arthur e não há quase nenhuma história real na qual possamos contar, então eu pude fazer mais ou menos o que eu queria. Quanto aos livros Saxônicos eu tive um esqueleto para a história graças à Crônica Anglo-Saxônica e algumas outras fontes, mas não há muita carne sobre os ossos, por isso tenho muita liberdade. Mas se eu estou escrevendo sobre a Revolução Americana, então eu não tenho quase nenhuma liberdade, porque eu estou invadindo o terreno elevado da lenda americana e devo contar a história real se o livro vai persuadir o leitor a respeito da veracidade da história – por isso, em Redcoat, eu mudei apenas um evento, trazendo-a para frente 24 horas. Então eu confessei os meus pecados em uma nota histórica no final do livro. Ocasionalmente eu fiz mudanças drásticas; Sharpe’s Company conta a história do terrível ataque em Badajoz e, em resumo, de uma simulação de ataque que pretendia apenas chamar os defensores franceses para longe das brechas, capturando a cidade, enquanto o ataque principal sobre essa brecha falhou desastrosamente. Pareceu-me que o drama daquela noite aconteceu nessa brecha, assim Sharpe tinha de atacá-la, e se Richard Sharpe ataca, ele ganha (ele é um herói!). Assim, no romance, eu permiti que os atacantes chegassem através da brecha (o que não aconteceu), pois caso contrário, a história não iria funcionar. Mas, novamente, eu confessei o pecado no final do livro.
GRRM: Eu escrevi tanto ficção científica quanto eu tenho escrito fantasia ao longo dos anos. Um subgênero cada vez mais popular em ficção científica é o romance de mundo alternativo – às vezes chamados de “contrafactuais” pelos historiadores, ou de histórias “e se?” pelos fãs. Por falta de um prego, o reino foi perdido… mas e se o prego não foi perdido? E se Napoleão venceu em Waterloo? E se o Sul venceu a Guerra Civil? E se o Império Romano nunca caiu? O que você acha de tais histórias? Você já esteve tentado a escrever uma você mesmo?
BC: Nunca! Talvez seja só eu, mas a história alternativa não tem recurso. Lembro-me de um filme louco em que um F-16 da Força Aérea Americana de repente apareceu sobre Pearl Harbor. Certo. Começamos por concordar que romances de “fantasia” e romances históricos são gêmeos e parece-me que a mistura dos dois é incestuosa e, ao contrário de Jaime e Cersei Lannister, eu não sou um fã de incestos.
GRRM: Falando em batalhas … Eu acredito que você faz as cenas de batalha melhor do que qualquer escritor que eu já li, passada ou presente. E de onde estou sentado, as batalhas são difíceis. Eu escrevi a minha parte. Às vezes eu emprego o ponto de vista privado, muito de perto e pessoal, deixando o leitor no meio da carnificina. Isso é vívido e visceral, mas de necessidade caótica, e é fácil perder todo o senso de batalha como um todo. Às vezes eu vou com o ponto de vista geral, em vez disso, olhando para baixo do alto, vendo linhas e flancos e reservas. Isso dá uma grande sensação de táticas, de como a batalha é ganha ou perdida, mas pode facilmente escorregar para a abstração. Mas você parece ser capaz de fazer as duas coisas, simultaneamente. As setas em Agincourt, Uhtred grunhindo e empurrando uma parede de escudos Saxões, Sharpe levando uma esperança vã… você nos dá todos os sons e cheiros e sangue, e ainda assim as táticas de batalha permanecem sempre compreensíveis. Como você faz isso? Quais são os blocos de construção de uma cena grande de batalha? De todas as batalhas que você escreveu, você tem uma favorita?
BC: Eu tenho uma enorme vantagem sobre você, a de que minhas batalhas foram travadas e os sobreviventes deixaram relatos, e alguns têm sido exaustivamente descritos pelos historiadores militares, então, é me dado um quadro que você tem que inventar. Eu também odeio ler uma história militar e ficar confuso, normalmente por algarismos romanos (“Corpo XV mudou-se para o oeste, enquanto a Brigada XIV foi reimplantada em direção ao sul “e assim por diante), o que significa que você está tendo que constantemente ser direcionado a um mapa, ou mapas , e tentar lembrar qual é o Corpo VX… Assim, eu tento dar ao leitor um quadro antes da batalha começar – onde eles estão lutando? Quais são os marcos mais salientes? Quais unidades são importantes? Eu não quero que o leitor pare para consultar um mapa… Embora eu tenha certeza de que falhei nisso. Feito isso vou tentar mudar o ponto de vista, assim como você faz, entre o close-up desagradável e uma visão geral mais distante dos combates. The Face of Battle, do John Keegan, é um livro maravilhoso para ler e descobrir como os homens experimentam uma batalha, e isso foi uma grande influência. Eu inventei batalhas a partir do zero – e aquela de que eu estou mais orgulhoso é a do Monte Badon nos livros de Arthur. A batalha aconteceu, mas não sabemos nada do que aconteceu (ou até mesmo onde aconteceu), então eu usei as táticas de Wellington da batalha de Salamanca e funcionou perfeitamente! E de todas as batalhas? Provavelmente a de Salamanca em Sharpe’s Sword.
GRRM: Um tema familiar em uma série de fantasia épica é o conflito entre o bem e o mal. Os vilões são frequentemente Dark Lords com capangas demoníacos e hordas de subordinados destorcidos, deformados e vestidos de preto. Os heróis são nobres, valentes, castos e muito formosos à vista. Sim, Tolkien fez algo grandioso e glorioso a partir disso, mas nas mãos de escritores menores, bem… vamos apenas dizer que esse tipo de fantasia se tornou desinteressante para mim. São os personagens cinzentos que me interessam mais. Esses são o tipo que prefiro escrever sobre… e ler sobre. Parece-me que você compartilha essa afinidade. Seu protagonistas têm momentos de heroísmo, mas eles têm falhas também. Por mais que eu goste de ler sobre Uhtred, há mais do que uma pequena escuridão nele, e Richard Sharpe não é um homem que você queira atravessar. E você chegou ao ponto de fazer o protagonista de seu romance sobre a Guerra Civil americana um copperhead, um nortista combatendo pelo sul… Não é um grupo que normalmente gera muita simpatia. Seus vilões são tão humanos, não há um monstro de papelão entre eles. E você é geralmente menos do que reverente quando retrata alguns dos heróis da história britânica e americana. Paul Revere e Alfred, o Grande me vêm à mente. O que existe nos personagens imperfeitos que os torna mais interessantes do que os heróis convencionais?
BC: Talvez todos os nossos heróis são reflexos de nós mesmos? Eu não estou dizendo ser Richard Sharpe (Deus nos livre), mas tenho certeza que partes da minha personalidade vazou para ele (ele é muito mal-humorado no período da manhã). Certa vez, escrevi uma série de prefácios para os livros Hornblower e tive de lidar com a questão perene de em quem Hornblower foi baseado? Alguns disseram Cochrane, outros sugeriram Edward Pellew (ambos foram notáveis capitães de fragata nas guerras napoleônicas), mas era óbvio que Hornblower era a pessoa que Forester quis ser. Hornblower foi Forester, sem alguns dos traços menos atraentes do Forester. A maioria dos meus heróis são pessoas de fora… talvez porque eu me senti assim quando crescendo (longa história, não vamos contá-la aqui), e é por isso que meus personagens favoritos seus são Arya e Jon Snow. E, talvez, personagens falhos são mais interessantes porque são forçados a fazer uma escolha… Uma personagem convencionalmente boa tem vontade sempre de fazer a coisa certa; direita. Chato. Sharpe, muitas vezes faz a coisa certa, mas geralmente pelas razões erradas, e isso é muito mais interessante!
GRRM: Quando Tolkien começou a escrever O Senhor dos Anéis, foi concebido como uma continuação para O Hobbit. “A história cresceu enquanto era contada”, disse ele mais tarde, quando O Senhor dos Anéis tinha crescido e se tornado a trilogia que conhecemos hoje. Essa é uma frase que eu muitas vezes tive ocasião de citar ao longo dos anos, como a minha própria As Crônicas de Gelo e Fogo, que cresceu de três livros que eu tinha originalmente vendido para os sete livros (cinco publicados, dois a mais para escrever) que agora estou produzindo. Muito do seu trabalho também tomou a forma de série. Os seus contos também ‘crescem à enquanto são contados’, ou você sabe quanto tempo vai levar suas viagens antes de se preparar? Quando você escreveu esse primeiro do Sharpe, você podia imaginar quanto tempo e quão longe você iria marchar com ele e Harper? Você sabia quantos livros de histórias Uhtred exigiria quando você se sentou para escrever sobre ele?
BC: Não faço ideia! Eu nem sei o que vai acontecer no próximo capítulo, muito menos no próximo livro, e não tenho idéia de quantos livros poderia ainda haver em uma série. E.L. Doctorow diz algo que eu gosto que é que escrever um romance é um pouco como dirigir por uma estrada de um país desconhecido durante a noite e você só pode ver o mais longe que seus faróis um pouco fracos lhe mostram. Escrevo na escuridão. Eu acho que a alegria de ler um livro é descobrir o que acontece, e para mim essa é a alegria de escrever um também!
GRRM: Eu conheci milhares de meus leitores face a face, não só em turnês do livro, mas em convenções de fantasia e sci-fi, onde tende a existir muito mais interação entre escritores e leitores do que é habitual em outros gêneros. Eu costumava responder a todas as minhas cartas de fãs, nos dias em que os leitores ainda enviavam cartas aos cuidados de meus editores. (Foi fácil, não havia muito). O e-mail tem aumentado a quantidade de cartas que recebo milhares de vezes, muito além da minha capacidade de mantê-las, mas eu ainda tento ler todos os emails que recebo, mesmo quando eu não posso respondê-los. Eu não tenho Facebook ou o twitter, mas eu tenho um blog (no Live Journal), e meu endereço de e-mail pode ser encontrado com bastante facilidade. Mas existem perigos de ser tão acessível, como eu descobri nos últimos anos. A grande maioria dos meus fãs são pessoas incríveis, perspicazes, inteligentes, solidárias… mas há uma pequena mas vocal minoria que pode ser irritante. Como você tem se relacionado com o seu próprios leitores ao longo dos anos? Você acha que um escritor não deve nada a seus leitores, além do trabalho em si? Os fãs enviam-lhe sugestões sobre como eles querem que sua série acabe? Enviam-lhe obras de arte, presentes? Nomeiam filhos e animais de estimação com o nome de seus personagens? Escrevem “fanfictions” usando seus personagens? Você alguma vez se viu influenciado pelas reações de seus leitores para com um livro, ou um personagem?
BC: Eu encontrei meus fãs para ser fantástico. Há um punhado minúsculo que quer ser excessivamente crítico sobre alguns detalhes (e sim, é claro que existem erros) e uma vez, no meu site, eu implorei para que um leitor encontrasse um outro autor para ler. Mas a grande maioria é divertida de se conhecer e é de importância vital ouvi-los. Eu fiz uma excursão do livro uma vez e três pessoas separadamente me disseram que era hora de Sharpe ter alguma mulher de alta classe! Eu não tinha percebido que ele vinha convivendo com mercadoria bruta durante tantos livros, então eu respondi a eles dando-lhes Lady Grace em Sharpe’s Trafalgar, e ela continua sendo minha heroína favorita. Ela nunca teria existido sem os fãs!


GRRM: Ambos de nós tivemos o privilégio de ver nossos personagens trazidos à vida na televisão. Sean Bean foi Richard Sharpe muito antes de ter sido Ned Stark. (E verdade seja dita, ele foi Ned Stark em grande medida, porque David Benioff, Dan Weiss, e eu tínhamos visto o quão magistralmente ele interpretou Sharpe). Como você se sentiu sobre a série da BBC? Até que ponto você se envolveu com ela? Será que algum dia vamos ver algum de seus outros personagens na tela? Se assim for, você mesmo gostaria de escrever os roteiros? O que você acha que faz uma boa adaptação? E será que vamos ver Sean Bean como Sharpe novamente?
Sean Bean como Richard Sharpe
BC: Eu achei que o Sharpe da série de TV foi ótimo! É claro que eles mudaram os livros, mas eles não tinham escolha. Você e eu podemos escrever uma cena com 100 mil homens e isso não nos custa nada, mas todo o extra é um dreno em um orçamento de TV, mas eles lidaram muito bem com essa restrição e Sean, é claro, foi um Sharpe maravilhoso e um grande Ned Stark (que deveria ter vivido, maldito). Até onde eu sei não há planos para outra série. Há uma conversa de fazer Agincourt em um filme (eu não estou prendendo a respiração) e uma série de TV sobre Uhtred (o que seria bom, mas, novamente, eu ainda estou respirando). Eu não quero nenhum envolvimento com qualquer produção, fora o de ser um líder de torcida. Eu trabalhei em televisão por 11 anos e aprendi o suficiente para saber que eu não sei nada sobre a produção de drama de TV, por isso estou feliz em deixá-lo para os especialistas. E eu duvido que eu poderia escrever um script – Eu nunca tentei e preferiria escrever um romance.
‘Death Of Kings’ é o último volume lançado
d’As Crônicas Saxônicas de Cornwell
GRRM: Última pergunta. O que Bernard Cornwell nos reserva? Você já fez as Guerras Napoleônicas, a Guerra Civil Americana, a Guerra dos Cem Anos, Rei Arthur, os saxões e os dinamarqueses. Você vai voltar a qualquer uma dessas eras, revisitar alguns de seus personagens das grandes séries? Ou existem outras épocas da história que você pretende explorar?
BC: Há um período que eu estou desesperado para escrever sobre (perdoe-me se eu não digo qual porque eu não quero outra pessoa escrevendo sobre ele em primeiro lugar!). Mas o próximo é um outro romance sobre Thomas de Hookton na Guerra dos Cem Anos, então de volta ao Uhtred e os saxões.

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George R.R. Martin sobre a fantasia na TV e a segunda temporada

George R.R. Martin deu uma entrevista ao The Hollywood Reporter, na qual fala sobre a fantasia na televisão e um pouco sobre o que podemos esperar da segunda temporada.


The Hollywood Reporter: O FX deu crédito a Game of Thrones por mostrar que um drama de fantasia pode funcionar às 22h. Porque é que o horário é importante para o género?
George R.R. Martin: A fantasia é a forma de literatura mais antiga – remonta a Gilgamesh e a Homero. Estas pessoas escreviam fantasia há milhares de anos atrás. Infelizmente, na televisão, por uma razão qualquer, a fantasia é entendida como um género para crianças. Não faziam uma fantasia para adultos sofisticada e eram muito resistentes. Mesmo quando o fizeram, oBeauty and the Beast, que foi uma série na qual participei nos anos 80, tentámos tornar o Beauty and the Beast num drama sofisticado para adultos, mas eles puseram-no no horário das 20h. Porque era fantasia, a CBS achou que era uma série para crianças. Estávamos constantemente a discutir com o departamento de Standard and Practices o que poderíamos mostrar às 20h. Felizmente, com a HBO, ultrapassámos isso. Não tenho nada contra livros de crianças ou fantasia para jovens adultos, há por aí tantos livros de fantasia para crianças maravilhosos – cresci e aprendi com essas coisas – mas também deve haver fantasia para adultos. A fantasia é apenas o reino da imaginação e do romance. O público adulto pode apreciar isto tanto como um público jovem.
THR: Poderia Game of Thrones funcionar em sinal aberto? 
Martin: Não da forma como os canais em sinal aberto funcionam atualmente. A HBO e outros canais por cabo – a Showtime, a Starz, etc. – estão a dar rédea solta aos criadores para fazerem coisas imaginativas. Os canais em sinal aberto continuam presos ao “não podemos ofender ninguém: temos de pôr o Standard and Practices a rever tudo, demasiado sexo, demasiada violência, vamos arranjar um focus group para dar uma vista de olhos a isto. Fizemos uma pré-estreia e não gostaram daquela personagem…” Estão desesperados por audiências e tentam proteger toda a gente para não ofenderem ninguém, e as coisas são pré-digeridas. Os canais por cabo são os que estão dispostos a correr riscos e a fazer algo original e alargar horizontes. Só assim se consegue boa arte, não se consegue um bom programa de televisão ou um bom livro se se utilizar a fórmula gasta que já foi utilizada 100 vezes antes.
THR: Quantos mais grandes riscos há para correr na segunda temporada? 
Martin: Consideravelmente mais – ninguém está a salvo na série, qualquer um pode morrer a qualquer altura. As pessoas que leram os livros sabem que há algumas mortes importantes e vêm aí traições e reviravoltas. Ninguém é bem o que parece.
THR: Quão perto irá a segunda temporada manter-se em relação ao livro?
Martin: Estão a manter-se muito próximos. Até agora, os responsáveis David Benioff e D.B. Weiss parecem muito empenhados em contar a minha história num meio diferente, em vez de a tornar numa história diferente, opção em relação à qual sou ligeiramente a favor (risos).
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